COLÉGIO ESTADUAL MANOEL RIBAS
Santa Maria-RS


" Há também as janelas das paredes velhas que abrem um espaço para o passado e os ancestrais... São as janelas da memória!"

Florian Bernard



O Colégio Manoel Ribas, tombado como patrimônio histórico municipal desde 1995 e como patrimônio do IPHAE desde 2000, comemorou festivamente seu cinqüentenário no ano de 2003.

O Maneco - como é carinhosamente conhecido - tem sua história ligada diretamente aos ferroviários, pois surgiu da necessidade de atender os filhos dos funcionários da Rede Ferroviária Federal S.A. (RFFSA).

Nesses cinqüenta anos de atividade educacionais, já foi considerado colégio padrão do Rio Grande do Sul.

Na área desportiva teve grande projeção, conquistando muitos títulos e troféus. Em 1974, por exemplo, foi tri-campeão gaúcho de handebol e bi-campeão brasileiro de ginástica olímpica.

A Banda do Maneco, patrimônio cultural de Santa Maria-RS e região, há 48 anos desfilando pelas ruas, exerce um verdadeiro fascínio, encantando crianças e adultos.

Ao longo desses anos, o Maneco continua sendo referência no ensino de Santa Maria-RS.

Colégio Maneco (2006)

Seu prédio, com decorativismo discreto e elementos neo-clássicos, suas mansardas (janelas no telhado), balaústres com influência renascentista européia e a planta em forma de bumerangue, fazem dele uma construção bonita, imponente, digna de ser considerada patrimônio histórico.

Com o decorrer dos anos, o prédio foi se degradando, chegando a condições lamentáveis de funcionamento. Foi quando a comunidade escolar se mobilizou no sentido de viabilizar sua reforma. E, em 1998, foi inaugurada sua restauração, dentro das mais modernas técnicas de preservação de estilo. Hoje, com uma estrutura física de qualidade, apresenta amplas salas de aula, laboratórios, biblioteca, espaço cultural para exposições e memorial, sala de teatro e ginásio poli-esportivo.



Crônica escrita por um ex-aluno do Colégio Manoel Ribas, hoje engenheiro civil, publicada na Usina das Letras, Santa Maria-RS, em 06-03-2006.

As glândulas coxais e o cupreto de Índio

Athos Ronaldo Miralha da Cunha*

É salutar e reaviva a memória quando recordamos os velhos e longínquos tempos de estudante secundarista. Algumas peripécias enquanto adolescentes e trabalhos em grupos nós guardamos em um cantinho especial de nossas saudades.

Eu cursei as últimas séries do ensino fundamental e o ensino médio no Colégio Estadual Manoel Ribas, o nosso querido Maneco. Foi naquele amplo pátio que cruzamos nossos primeiros olhares e despertamos as primeiras paixões juvenis. E foi através desses olhares desencontrados que uma garota de olhos e cabelos castanhos ocupou boa parte dos meus pensamentos e um largo latifúndio no coração improdutivo.

Nas aulas de educação física ficou explícita que eu não tinha a mínima aptidão para o vôlei e para o handebol. Não tinha altura suficiente para o basquete e era pouco criativo no futebol. Hoje agradeço ao divino por não ter sido iludido com meus parcos talentos com a bola. Em química era como no futebol. Dava para o gasto, mas jamais seria um Linus Paulling. Nos estudos eu era fera em matemática e péssimo em português. Gostava de história e literatura e odiava inglês. Até hoje tropeço no “How are you?”.

O nosso ciclo juvenil encerrava com o fantasma do vestibular. Os cursinhos eram peritos em elaborar estratégias com a finalidade de memorização. Os conteúdos eram transformados e facilitavam o aprendizado ou a “decoreba”, como se dizia outrora. E, em seis meses o aluno estava preparado para enfrentar o “fantasma”. Havia um locutor de radio que dizia “veeeeeeeeeeeesssstibular” e o nosso coração saia pela boca. Tínhamos ciência que o ano que antecedia ao vestibular mudaria o rumo de nossas vidas. E por isso estudamos muito nesse ano, algumas dicas ainda permanecem em nossas mentes que jamais esquecemos. Porque foram marcantes. Antigamente fazia-se cursinho no último ano do segundo grau. Os menos favorecidos, no segundo semestre e os ainda menos favorecidos, que era o meu caso, apenas o intensivo de dezembro. Não havia outro jeito, tínhamos que viver debruçados nas apostilas, que naqueles tempos chamávamos de polígrafos. Hoje, com essa nova modalidade de ingresso ao ensino superior os pais têm que se preparar para desembolsar três anos de cursinho e mais o curso pré-vestibular do último ano e o intensivo, lógico.

Voltando às dicas, algumas são lembradas mesmo passados 25 anos. Fonclabrsis... essa fugiu da tela. A tabela periódica era pródiga em siglas e frases que facilitavam a memorização. ... “H linak roubou o cezio do frâncio”. Incrível, não? As fórmulas de física eram transformadas em palavras. D=v.t era “Devota”. F=m.a era “Famosa”. Uma das que eu mais gostava era a Lei da Inércia, se não me engano, a primeira Lei de Newton. Era utilizada como desculpa para quando não estava a fim de fazer nada em sala de aula. Ou seja, um corpo em repouso. E, estava praticando a primeira lei de Newton. Aí a “profe” que naquela época era “fessora”, me manda para o MRUV em direção a sala da Direção. O binômio de Newton era algo absurdo, deste tamanho. Esse eu não em lembro. A biologia era um horror, como alguém guardaria aquela montanha de nomes, todos estranhos e latinos, na maioria das vezes. Alguém se lembra do que é um mitocôndrio? As minhas melhores notas sempre foram em trigonometria. O seno de um ângulo era o cateto oposto pela hipotenusa. Será que ainda é? A tangente era o cateto oposto pelo adjacente. Versinhos rimados.

Agora, bonita mesmo era a fórmula de Báskara. “Sobre dois a”, era um fecho fenomenal da fórmula. Era quase um poema cubista. Você recitava um monte de letras e raiz no numerador e fechava o denominador com o “sobre dois a”. Em português eu tinha uma contrariedade com aquelas malditas orações. Eu nunca soube e até hoje não sei identificá-las. Eu era incomodado com as orações subordinadas. A injustiça sempre me causou indignação, então entes de saber qual era a oração eu ficava indignado para saber o porquê de toda aquela subordinação. Eu queria orações livres. Orações libertas e adversativas. As orações subordinadas eram simplesmente inaceitáveis. Acho que o golpe de 64 tem alguma coisa a ver com as orações subordinadas. Eu achava inconcebível uma oração ser subordinada e adversativa. Adversidade não se coaduna com subordinação. Era o que eu pensava. E talvez por isso eu nunca aprendi. Apenas identificava as que começavam com “mas”. Justamente as subordinadas adversativas.

Eu não sei se por um complexo mal-resolvido ou um desvio pseudo-erótico de minha conduta, mas dois momentos daqueles memoráveis dicas eu jamais esqueci, aliás, não eram dicas, eram nomes que lembravam, de certa maneira uma sensibilidade supostamente sensual e escandalosamente pornográfica. São as “glândulas coxais” e o “cupreto de Índio”. Parece brincadeira, mas as glândulas coxais nós encontramos nas aranhas que é um aracnídeo e o cupreto de Índio é uma fórmula química do cobre com o elemento Índio. Representada por CuIn.

Por isso, quando vemos as Sheilas dançando lembramos dos aracnídeos. Elas, sim, possuem as verdadeiras glândulas coxais. Já os caigangues... os cinta-largas... deixa pra lá.

* O autor (ARMC) é formado em Engenharia Civil pela UFSM em 1983 e reside atualmente em Santa Maria-RS. Participou dos seguintes eventos literários:
- Duas menções honrosas no concurso A UFSM na minha história - 2001 com as crônicas “Bixo da faca” e “Um certo Centro de Tecnologia”.
- Menção honrosa no concurso de contos Paulo Leminski com o conto “O músico e o engraxate”.
- Primeiro lugar no concurso Literário Felipe D’Oliveira 2003 com a crônica “Um clarão embaixo do viaduto”.
- Terceiro lugar no concurso a UFSM na minha história 2003 com a crônica “Silicato complexo”.
- Terceiro lugar no concurso “Cleber Onias Guimarães” de São Paulo com a crônica “O devaneio de Carlito Cientodosfuegos”.
- Selecionado no 13º concurso Histórias do Trabalho em “Lembranças e Vivências” com o texto “Último trem na estação”.
- Jurado em crônicas do concurso Literário Felippe D’Oliveira 2004.




Quem foi Manoel Ribas?

David Carneiro e Túlio Vargas* Manoel Ribas - pintura na Galeria do Salão dos Governadores do Palácio Iguaçu-PR, reproduzida por Simone Fabiano.

MANOEL RIBAS nasceu em Ponta Grossa, Paraná, em 08 de março de 1873, filho de AUGUSTO RIBAS e PUREZA DE CARVALHO RIBAS, proprietários de terras da região, pertencendo a uma família tradicional dos Campos Gerais. Herdou o nome do avô, o Brigadeiro RIBAS, que fez a expedição ao alto Paraná a fim de guarnecer as fronteiras durante a Guerra do Paraguai.

Estudou em Castro-PR, no colégio do Professor Serapião, onde foi aluno de Rocha Pombo. Casou-se também nessa cidade.

Em 1897 deslocou-se para Santa Maria, Rio Grande do Sul, convidado para organizar a Cooperativa dos Empregados da Viação Férrea do Rio Grande do Sul (foto abaixo). Realizou administração altamente proveitosa, o que lhe valeu ganhar notoriedade. Em razão disso, foi eleito em 1927, prefeito daquela cidade.

Prédio onde funcionava a Cooperativa dos Empregados da Viação Férrea do Rio Grande do Sul

Quando o interventor do Paraná, general Mário Tourinho, renunciou ao cargo, após a revolução de 30, o presidente Getúlio Vargas foi buscá-lo em Santa Maria-RS, pois o considerava solução conciliatória para os confrontos políticos que se desencadearam com a vacância da interventória. Veio governar com a autoridade e prestígio de uma bem sucedida carreira na área administrativa empresarial. Assumiu em dia 30 de janeiro de 1932. Permaneceu durante treze anos à frente do governo paranaense, ora como Interventor de 1932 a 1934, ora como Governador (eleito pelo Congresso Legislativo Estadual) de 1935 a 1937, e outra vez como interventor de 1937 a 1945, com o advento do Estado Novo.

Autodidata, simples, severo, era, apesar do gesto rude, um grande coração. Generoso e honesto, destacava discursos longos e homenagens protocolares. Em torno de seu procedimento singular criaram-se lendas de inefável sabor folclórico. O apelido de “Mané Facão” adveio-lhe do corte, a que foi obrigado, de funcionários públicos em excesso diante de um quadro financeiro caótico que lhe incumbia administrar.

Manoel Ribas

Seguindo os passos de Getúlio Vargas, realizou várias obras em diversos setores. Na área da educação, deu início a construção do Colégio Estadual do Paraná, assim como de muitas outras instituições educacionais espalhadas pelo interior do estado paranaense. Nesse período as escolas normais se limitavam a Curitiba, Ponta Grossa e Paranaguá.

Intensificou o fomento à agricultura, mediante a construção de escolas rurais e distribuição de sementes selecionadas; intensificou a melhoria da pecuária com a criação de cavalos de corrida, a importação de reprodutores da raça “jersey”; apoiou a cafeicultura e priorizou a Saúde Pública, com a implantação de centros de assistência sanitária, laboratórios e dispensários.

Apesar de parcos recursos disponíveis, realizou importantes obras básicas, sem descuidar da assistência aos pobres e desvalidos, cujos dramas muito o sensibilizavam. Construiu, por exemplo, a Estrada do Cerne, iniciada em 1935 e concluída em 1940, ligação vital ao desenvolvimento integrado do Estado, numa distância de 700 quilômetros, ligando o Paraná de Curitiba ao Porto Alvorada, com bifurcação para Londrina e Jacarezinho. Reativou a Estrada da Graciosa, com objetivo de ligar os maiores centros produtores do Estado ao litoral; ampliou e reaparelhou o Porto de Paranaguá, para dar vazão aos produtos que vinham do interior.

MANOEL RIBAS teve uma preocupação especial com a questão de terras em sua administração, reiterou a posse de terras do Estado e ampliou o patrimônio público.

Deu ênfase especial aos programas assistênciais, criando a casa do Pequeno Jornaleiro e outras semelhantes. Fez tudo com inflexível rigor na obediência da execução orçamentária.

Fiscalizava pessoalmente as repartições públicas, surpreendendo os funcionários relapsos que eram sumariamente demitidos. Com isso ganhou muitos inimigos, mas cativou respeito e confiança da maioria esmagadora da população.

A Indústria Klabin localizou-se no Paraná por sua influência e apoio. A abertura à colonização do norte do Paraná foi outro empreendimento decorrente da sua visão de governante preocupado com o futuro. Segundo os críticos, seu erro maior foi permitir o desmembramento do Estado com a criação do Território do Iguaçu. Nesse episódio, todavia, prevaleceu sua fidelidade ao presidente Getúlio Vargas, após exauridas todas as gestões para impedir a mutilação.

O cooperativismo encontrou nele defensor permanente, dada a grande experiência que trouxera de Santa Maria-RS. Desprovido de títulos acadêmicos, seu desempenho em favor das atividades culturais retrata um administrador sensível e pragmático que soube estimular vocações artísticas. Entre os muitos talentos que incentivou destaca-se o mestre Poty, ao qual concedeu bolsa de estudos para estudar no Rio de Janeiro.

Com a deposição do presidente Getúlio Vargas em 1945, caiu também o interventor MANOEL RIBAS. Deixou o Palácio São Francisco, antiga sede do governo paranaense, em 06 de novembro, após o longo predomínio na administração e política do estado.

Faleceu em Curitiba-PR a 28 de janeiro de 1946, quando pretendia candidatar-se novamente ao governo do Estado após o término do Estado Novo, momento em que o país nascia para nova reconstitucionalização.

Fonte:
Biografia: artigo " Quem foi Manoel Ribas?", publicado na revista Pedra da Gazeta - A Revista da Terra dos Pinheirais (Informativo semanal online - Ano II, Nº 71 - 11 abril/2006), em http://www.pedradagazeta.com.br, baseado em "História Biográfica da República no Paraná", de David Carneiro e Túlio Vargas*, 1994.

*Dr.Túlio Vargas é o atual Presidente da Academia Paranaense de Letras (2006).

Foto de Manoel Ribas: tela na Galeria do Salão dos Governadores do Palácio Iguaçu-PR, reproduzida por Simone Fabiano, obtida na homepage da Casa Civil do Governo do Estado do Paraná (Governantes do Paraná).



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