IBIRAPUITÃ
Flávio Bisch Fabres
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“ Mi mala suerte se debe al morubixaba Ibirapuytã que incutió
en sus bugres la idea de luchar. Muerto quedó en mi rastro.
Mi derrota en Ibicuy se debe a este desgraciado y al rio, botija e malo,
que tiene su nombre, el rio Ibirapuytã.”
(LACY OSÓRIO)
Através do campo
Através do tempo
Através da lenda
Através da história
Espera
Espera o passar das luas, espera o passar dos anos
Espera pelo futuro.
Da velha raça charrua guardei o nome
O sangue, dos seus guerreiros
A água, do seu penar.Ibirapuitã
Clarins ao longe. Repicar de sinos
A cruz e a espada novamente em luta
Galopes. Gritos. Entreveros. Ais
Envolta em fumaredo arde a capela.
Ibirapuitã
Abreu. Borges. De Ornellas"Aqui Del-Rei me deu uma sesmaria
Meu boi se espalha. O campo é fino
Canteiro belo é minha terra
Aqui vai nascer meu filho
Aqui ficarão meus ossos
Aqui ficará minha casa
Batida pelo pampeiro."Ibirapuitã
A velha ponte assiste um dia
A luta estéril entre os irmãos
É a voz de carga
Em remoinho
C’o rubro sangue
Que nela corre.Ibirapuitã
Partículas de matéria que se atraem, umas às outras
Na direção da reta que as une
Rebojos galopantes pretendendo a volta
Mas que o fadário impele para a embocaduraIbirapuitã
Do dourado valente que briga na linha
Das corticeiras floridas cascateando cores
Do guri travesso que foge de casa
Buscando o batismo no fundo das águas
Dos mosaicos coloridos que as trouxas pela manhã
Derramam sobre tuas margens
Da negra cansada que busca sustento
Batendo, lavando a roupa do rico"-Ai, meu rio! Tu me dás o pão, mas eu quero minha casa
Eu quero meu filho que um dia levaste.
Ai, meu rio !"Ibirapuitã
Correndo
Através do campo
Através do tempo
Através da história
Espera
Espera o passar das luas, espera o passar dos anos
Espera pelo futuro...
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"Esse Ibirapuitã não existe mais. A não ser pelos fatos históricos, registros imperecíveis, o resto são fragmentos de imagens guardadas de um passado: uma pescaria; um sobrevôo de teco-teco sobre as matas ciliares do rio; uma fugida de casa (quase tragédia) e a visão das lavadeiras tão bem registradas num quadro de dona Gertrudes Baddo (madrinha do meu irmão Rui). Pode ser uma visão muito pessoal, mas, para mim, é muito grata. Esse é o meu Ibirapuitã, ele corre dentro de mim." (F.B.F.)
Flávio Bisch Fabres (e-mail) nasceu em Alegrete/RS, em 16-08-1934, filho de Aristófanes Fabres ("Tofa") e Noemi Dias Bisch ("Mimi"). Ingressou na vida militar na Escola Preparatória de Cadetes do Exército em Fortaleza/CE, em 1952. Cursou a Academia Militar de Agulhas Negras em Resende/RJ, onde graduou-se Oficial da Arma de Cavalaria, em 1957. Como Oficial do Exército, serviu no 5º RC (Quaraí/RS); no 6º RC (Alegrete/RS); no 1º R Rec Mec (Santo Ângelo/RS); no 6º RCB (Alegrete/RS); no 16º RC Mec (João Pessoa/PB); no 7º Esqd C Mec (Recife/PE), onde foi seu comandante (1975 a 1977); na 10ª CSM (Alegrete), tendo encerrado sua carreira militar no Cmdo 6ª DE (Porto Alegre/RS) no posto de Coronel, em 1990. Fez suas primeiras poesias (inclusive esta acima) nos anos 60, instigado pela proposta do jornal Gazeta de Alegrete através de sua Porta de Acesso - um espaço aberto aos talentos da cidade, idealizado pelo poeta alegretense Antônio Brasil Milano. Nessa época, alguns poemas seus foram publicados na Gazeta do Alegrete, inicialmente com o pseudônimo de FEBEFE e, depois, com seu nome verdadeiro. Uma de suas poesias - Preto e Branco - tirou o 1º lugar no concurso "Porta de Acesso" da Gazeta de Alegrete (ver abaixo). Em razão da premiação, esse poema foi publicado na Revista Ibirapuitã, também organizada pelo poeta alegretense Antônio Brasil Milano e pelo escritor Sérgio Faraco. Classifica-se como um "trabalhador braçal da poesia", não como um poeta. Nos últimos anos, abandonou a poesia.
Nota da webmaster:
O personagem-título do poema abaixo era o porteiro do Instituto de Educação Oswaldo Aranha, um preto alto e magro, de pouca fala e olhar impassível, encarregado de tocar a sineta e controlar a entrada e saída dos alunos no portão principal do colégio. Nos anos sessenta, a sineta foi substituída por uma sirene, que emitia um total de três sinais, com intervalo de 5 minutos entre eles. "Seu"Aladim tinha a missão de barrar os atrasados após soar o 3º sinal da sirene e, também, de evitar a saída antecipada de alguns fujões durante o recreio. Era muito respeitado por todos os alunos, embora raramente dissesse alguma palavra. Fechava o portão e pronto! Nenhum aluno insistia na negociação. "Seu" Aladim não falava, não negociava, apenas lançava o seu olhar calmo e bondoso.
"Seu" ALADIM
Flávio Bisch Fabres
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Colégio Oswaldo Aranha - eterna lembrança
de várias gerações de alegretenses.
Bate a sineta no céu
Chamando os anjinhos pro recreio.
DELÉM-DELÉM! DELÉM-DELÉM!
Quem bate é um anjo alto
Alto e sério
Sério e bom
Bom e preto
-É sim, maninha! Os pretos no céu também são anjos...
(Era ele quem batia a sineta
Nos tempos da minha meninice
Chamando as crianças pro recreio...)
Outros poemas do autor
Maio de 1968. Há um mês atrás o grande líder do ativismo pelos direitos civis (para negros e mulheres, principalmente) havia sido assassinado. A comoção que envolveu o mundo chegou a Alegrete e fez nascer PRETO E BRANCO. A poesia ganhou o concurso "Porta de Acesso" da Gazeta de Alegrete e, posteriormente, foi publicada na revista IBIRAPUITÃ (F.B.F.)
PRETO E BRANCO
Flávio Bisch Fabres
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"Eu tenho um sonho de que algum dia nas colinas vermelhas da Georgia os filhos dos escravos
e os filhos dos senhores de escravos se sentarão juntos na mesa da fraternidade. Esta é a nossa esperança."
(Martin Luther King Jr.)
Preto e branco
Branco e preto
Black and white
White and black
É o grito de angústia de toda uma raça
É a fome, a miséria, o desprezo, a desgraça
É um povo altaneiro que rompe as amarras
Em seu desespero, mostrando suas garras
É o pranto do aflito, da pele mestiça
Querendo igualdade, clamando justiça
Preto e branco
Branco e preto
Black and white
White and black
Irmão branco que dançou meu jazz que mamou na negra que vestiu algodão que morreu comigo escuta meu lamento atende minha súplica porque também tenho alma tenho fome tenho frio quero justiça quero direito senão eu quebro senão eu queimo senão eu mato senão eu morro senão meu irmão de Milwake de Detroit de Providence de todo o mundo também quebra também queima também mata também morre querendo justiça querendo direito porque tem alma porque tem fome porque tem frio irmão branco que dançou meu jazz que mamou na negra que vestiu algodão que morreu comigo escuta meu lamento atende minha súplica!
MENSAGEM
Flávio Bisch Fabres
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Meu filho,
Se eu pudesse hoje, nesta noite
ver teu futuro, a vida que terás,
e nela visse um homem bom, justo e sincero
que estende a mão a quem espera,
uma palavra de amor ou um gole de água
e que dá aos tristes um pouco de alegria ...
Se eu visse hoje, nos olhos desse homem,
do homem que serás,
a sombra da revolta ou o brilho de uma lágrima
diante de uma injustiça ou de um pôr-do-sol ...
Se eu soubesse hoje que serás um dia
alguém sem preconceitos desconhecendo dogmas,
um homem que abraça um outro homem
sem temer sua cor ou suas crenças
e que dá às mulheres o carinho que elas pedem (e merecem) ...
Se eu sentisse hoje, que terás um dia
um coração que se enternece ao nascer de uma criança
ou com o triste fenecer dos velhos ...
Se eu adivinhasse hoje que terás um dia
mãos criadoras, mãos que dão a vida
à uma pedra bruta ou à uma nova vida,
mãos que derramam notas de ternura
de um instrumento musical ou de uma pena
levando sempre uma mensagem simples
de amor, perdão, de compreensão e paz ...
Meu filho, se eu pudesse hoje, nesta noite
ver no teu futuro, na vida que terás,
o homem que não fui,
meu filho, eu morreria feliz!
"Quando compus esse poema os guris eram pequenos e cochilavam no meu colo. Foi nesse instante que surgiu a inspiração. Hoje em dia não consigo lê-lo em voz alta... Infelizmente eles ficaram pelo caminho da vida. Perdi o Eduardo (28 anos) em 1992, atropelado em Porto Alegre. O Glauco (40 anos), meu filho mais velho, se foi em 2001 com um infarto fulminante, lá no Alegrete" (F.B.F.)
SENHORA
Flávio Bisch Fabres
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Passo as noites buscando inspiração
Para cantar, Senhora, o meu amor.
Vasculho meu baú de pensamentos
Rabisco pergaminhos intermináveis
Tentando em versos lindos ofertar-vos
A alma, os olhos, o coração, a vida...
Desta pena maldita, desta cabeça
Saem apenas palavras mutiladas
Que não chamam sequer vossa atenção.
Pudesse eu, Senhora, eu vos diria:
Que desfaleço
Que perco a cor
Que por vós morro
Sem vosso amor.
Que triste choro
Sem ter cantar
Quando não posso
Ao vosso lado
A sós ficar.
Vassalo humilde
Por vos querer
Peço perdão.
E submisso
Triste
Contrito
A vós, Senhora
Piedosamente
A vós entrego
Meu coração ...
Poesia da década de 80 (F.B.F.)
ENCHENTE NO IBIRAPUITÃ
Flávio Bisch Fabres
(10-08-2007)
Eu acho que já te contei como são as enchentes do Ibirapuitã... Não? Pois meu amigo, são de respeito!
Quando o rio começa a subir, desde suas nascentes - umas no município de Livramento e outras no município de Rivera - e tem suas águas engrossadas pelas águas do Ibicui que as recebe do Uruguai, aí então a coisa fica feia, índio veio! Mais feia do que um bando de coruja! O velho Ibirapuitã sai bufando da caixa e enche de galho a galho! Às vezes fica lambendo, molha que molha os dormentes da ponte da Termo Elétrica e se espalha na Várzea Verde! Fica estádio municipal, CTG, a ferragem do português, as quadras do Sete e o quartel do BE tudo debaixo dágua! Rio velho caborteiro, esse Ibirapuitã! Tem gente que já está acostumada, pois sabe que, dia mais dia, o rio - despacito, despacito - acaba voltando para o seu lugar e a vida tem que continuar. Mas quem sofre – e como sofre – é o pobrerio que vive em roda da cidade. Volta e volta a milicada da guarnição militar traz seus fogões e prepara um rancho pra essa gente necessitada. Nessas horas, todo o Alegrete se movimenta e a prefeitura, os clubes de serviço - o Lions e o Rotary - e a população em geral, cada qual dentro do que podem fazer e do que tem que ser feito, procuram aliviar a carga dos flagelados.
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Pois o que eu queria te contar aconteceu por ocasião de uma dessas enchentes. Enchente de São Miguel. Depois de quase uma semana de Ibirapuitã até às goelas, alto na caixa, ele começou a refluir para seu leito original. Nessa hora é que o povo começa a limpar os ranchos, a secar as cobertas molhadas e a conferir o que sobrou nas tulhas. Ali na Rua das Tropas - nessa época ela ainda tinha esse nome - a azáfama era grande. Pois foi ali, junto aos fogões da soldadama, que o barbeiro Danilo inventou de preparar um sopão para os flagelados. Te acalma, vivente, que eu já conto!
Enchente do Ibirapuitã em 1957 - Final da rua Barão do Amazonas.
Bueno, contar pra gente do Alegrete quem foi o Danilo Vargas é o mesmo que ensinar o Padre Nosso ao padre Pilar. Competente barbeiro e competente no beber, cabeleira abotoada atrás, Danilo sempre tinha um sorriso franco e aberto para seus clientes em geral e para o chinaredo em particular. Danilo era a alegria personificada. A barbearia DAVAR, seu estabelecimento na Rua dos Andradas, era ponto de encontro de doutores, fazendeiros, comerciantes e borrachos de todo porte quando queriam se afeitar e se englostorar.
Pois foi justo na barbearia que, naquele sábado, apareceu o também finado Isabelino, porteiro do Caixeiral até morrer, convidando o Danilo para fazer um sopão para os flagelados. “- Vou levar um galo velho lá de casa, Danilo! Daqueles com tempo de validade vencido. Um galo ex-combatente da revolução de 23!” Convite feito, convite aceito! Ficaram de se encontrar por volta das nove da manhã de domingo para os preparativos. Os fregueses da barbearia colaboraram com as gorjetas. Com o total apurado, o Danilo foi até ao açougue que existia da esquina da Doutor Lauro - ali onde, em tempos idos existiu o Bife Sujo, glória e salvação dos noctívagos alegretenses - e comprou os preparos do sopão. Tá bem que era puro osso e carne de segunda, mas, para um bom sopão que se preze, isso é mais do que suficiente.
Domingo de manhã, mal refeito de uma noitada passada entre as percantas da Eva Brasil, nosso barbeiro arranjou uma carona e se tocou com o material do sopão lá pra Rua das Tropas onde estavam localizados os fogões do 6º. Conseguiu um panelão com o sargento Maruca e começou a picar os pertences esperando pelo Isabelino. Era repolho, abóbora, cebola, alho, tudo picado à moda Miguelão, em pedaços bem grandotes. E bota a ferver e dê-le a tomar Jota Pe! Um sopão de fazer inveja ao mocotó do Toruca! E nada do Isabelino aparecer com o galo prometido... Começou a juntar flagelado de prato na mão em roda do Danilo. Também, o sopão cheirava melhor do que cogote de noiva!
No panelão a carne se desmanchava, soltando dos ossos, quando, quase às três da tarde, descendo a Itapiru, digo, a Nossa Senhora do Carmo, aparece o esperado ajudante. Isabelino, com um baita galo branco debaixo do braço e no maior porre do mundo: “- Danilo! Tá aqui o prometido galo velho, ex-combatente da revolução 23! Era da finada minha avó!”. E o Isabelino não sossegou enquanto não colocou na panela o galo branco... de louça de sua avó!
Nota da webmaster:
A crônica abaixo é sobre um fato verídico ocorrido na década de 40, envolvendo jogadores e torcedores do Guarany Futebol Clube de Alegrete e um time de Quarai, cidade vizinha localizada na fronteira com o Uruguai. No texto, a rivalidade futebolística entre alegretenses e quaraienses é mostrada com muito humor. O autor, embora alegretense, simula ser um quaraiense que relata o ocorrido a outro conterrâneo amigo, de sobrenome Tubino. Os detalhes da história relatada, segundo o autor, é verdadeira em quase a sua totalidade.XAVANTES EM PÉ DE GUERRA
Flávio Bisch Fabres
(17-06-2007)
Aristófanes... Dramaturgo grego coisa nenhuma! Alfaiate lá do Alegrete, mesmo! Pois não é que o desgranido, há anos atrás, teve o desplante de, numa apresentação no teatro - não me lembro se foi no Ypiranga ou no Treze de Maio daquela cidade - chegar ao palco com uma roupita de brim apertada, de tênis branco e tendo na cabeça uma picareta com barbicacho, dizendo que aquilo era a última moda aqui no Quarai... Dava uma fala e era barbicacho pra cá, barbicacho pra lá... Deboche geral! Pronto, quando acabou a tal peça (se não me engano tinha por título “E vêm chuva e chuva grossa!”), o povo do Alegrete, passou a nos chamar de “Barbicacho”! “Barbicacho”... Mas não é pra ficar p... da cara, Tubino? Por isso é que eu digo que foi muito bem feito a sumanta que a gente do Alegrete levou, anos depois, lá por volta dos anos 50, quando vieram jogar contra o Brasil. Tchê, apanharam até o c... fazer bico. Oigate porquera! Já te conto!
Nós tínhamos ido jogar em Alegrete contra o Guarany pelo campeonato estadual. Na volta, ainda dentro da cidade, ali no Povo da Lata, o nosso Maria Fumaça andou levando umas pedradas da piazada do Alegrete. Pronto! Era só o que faltava! Ser chamado de “Barbicacho”, perder o jogo e tomar pedrada, isso não! Vai ter volta! Ah, vai!
No dia seguinte o assunto era um só em toda Quarai. Do quartel do 5º até os boteiros do Porto o comentário era o mesmo. No Comercial, no bar da Cotinha, na farmácia do Proença e no cabaré da Tirolesa só se falava na surra que o pessoal do Alegrete ia levar quando botasse os casco aqui na terra... E gente pra afumentar a prosa é que não faltava. No Comercial, o Adelino, o Nezinho, o Renan e o Japur... Não, o Caturra, não, o Caturra ainda era piá. No bar da Cotinha, o Chapéu, aquele lá da usina, fazia comício conclamando os brios da gente do Jarau:
- Vamos mostrar pra esses “café com leite” que com a gente do Quarai, ninguém brinca, dizia ele.Lá no Alegrete, segundo me contou o Adalberto Moojen, o pessoal do Guarany veio de sangue doce para cá... Tranqüilos como água de poço... O Moojen me contou que, lá na farmácia do Cueto, era reunião atrás de reunião para saber quem iria de automóvel. Resolveram viajar de automóvel, em comitiva, para voltarem logo depois do jogo. Estavam certos de voltar com a vitória... Convocaram o Mário Thadeu, o Ignácio Bicca, o Piola, o Mário Galvão, os irmãos Grillo. Falavam em trazer até a madrinha do Guarany, a Dulce Assumpção, e, para dar sorte, o seu Orestes, da padaria Faraco! O Chiquinho Padula, mui debochado, chegou a sugerir que levassem o velho Cornélio “Polvadeira” e seu eterno porre dominical, sempre pedindo pênalti antes mesmo do jogo começar...
Um domingo lindo e ensolarado. Frio barbaridade, mas bonito! Um domingo digno de uma costela gorda assada, de um bom jogo de futebol e de carreiras em cancha reta.
Tubino velho, eu nem te conto! Os “café com leite” entraram em campo debaixo de laranjaço! Tavam mais assustados do que véia em canoa... O jogo era às deva mesmo! Foi um jogo duro, duro como mondongo de burro! Às tantas, o Mainha... O Ladislau Maia, Tubino!...Às tantas, o Mainha caiu no chão numa pegada mais forte do lateral do Guarany e foi aquela polvadeira! O pai dele que era milico, quis entrar em campo pra acudir o guri, e o juiz, vindo de Porto Alegre, um gringo de nome atravessado, Paulo Horvart, se não me engano (diziam que era húngaro), não deixou, e aí fechou o salseiro! O povo invadiu o gramado e desceu o pau na gente do Alegrete! Eu acho que só quem não apanhou foi o becão colorado – um tal de alemão Burmann - que era tenente e foi protegido pelos seus colegas de farda daqui. Ele e o Lenine, meia-direita deles, bicho velho mui vivaracho, se enrolou numa capa de oficial. Lenine... Me diz se isso é nome de cristão, Tubino? Ah! Dois ou três jogadores do Guarany resolveram pular o muro do estádio e caíram no meio de uma gauchada que estava voltando das carreiras.
Pronto! Esses apanharam de relho, saindo retovados de brasino rua a fora, procurando uma casa para se refugiar... Bueno, pra te encurtar a história a milicada do 5º teve que escoltar os “café com leite” até perto do Passo da Guarda... Oigatê coisa bem feita!
No Alegrete a gurizada do Oswaldo Aranha fugiu da aula e de manhã, lá pelas nove horas, foi esperar a chegada do trem de Quarai. Veio vazio... Sem ter o que fazer, quase acabaram se entreverando. Claro, uns torcedores do Guarany, e outros, secadores do Flamengo... Vê se ia dar certo... De um lado o “Polaco” da Vanda, o Leonardo Mitidieri, o Nelson “Pepé” e o Harold, todos flamenguistas, e do outro, os guris do Tofa, o Flávio e o Pedro, o Fernando Assis Brasil e o Neco “Pontaria”... Mas no fim, todos estavam descascando bergamotas e trocando figurinhas “Red Boy”... Guri é assim mesmo...
Onde a gargalhada corria solta era na Gazeta de Alegrete. Liderados pelo João Peres, os flamenguistas divertiam-se com a sova que o pessoal do Guarany havia levado. O Wilson Canto dizia para o Danton Rodrigues que o papelão que o Guarany havia feito tinha sido mais feio do que levar tombo de mão no bolso... O Antoninho Milano chegou junto com o José Mansur, contando que eles haviam escutado na rádio Nacional do Rio a notícia de que “os xavantes estavam em pé de guerra”, referindo-se a notícia aos alegretenses e aos quaraienses brigões...Xavantes em pé de guerra, vê se pode, Tubino...
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