DISCURSO do poeta ÉLVIO VARGAS como PATRONO da FEIRA DO LIVRO de ALEGRETE-RS/2007.

Em 31-10-2007, - ano do Sesquicentenário de Alegrete -, o poeta alegretense ÉLVIO VARGAS foi escolhido para ser o Patrono da Feira do Livro. O evento ocorreu de 20 a 24 de novembro, no Largo do Centro Cultural da cidade.

Seu discurso na abertura da Feira foi uma prosa ensaiada, em que inicia com uma homenagem ao seu primeiro colégio (Demétrio Ribeiro) e depois, ao seu segundo e último (Colégio Oswaldo Aranha), onde cursou o Ginásio (atual Ensino Médio). Ao final, com fragmentos de versos e prosa de vários escritores alegretenses de diversos estilos, ele homenageia os seus pares, numa poética colcha de retalhos ("Tributo Aos Meus Pares").

"Pinçei todos eles e os interliguei-os com uma única voz, pois aos ouvidos dos leigos eu os alcançaria pela música das palavras e, para os mais sensíveis, a relação de equilíbrio seria completa. Mas foi um desafio, tendo em vista que, na hora da leitura, as pessoas poderiam não assimilar o fio dramático melódico que unificava as vozes dos poetas e o clamor afetivo pela terra natal. Mas acho que acertei! O texto foi lido pela Jussara Giacomoni, que foi esplêndida. Interpretou as falas com emoção e postura cênica. O crepúsculo derramado sobre os pés e cabeças das pessoas invadiu-lhe as almas! O olhar de espanto de muitos foi assaltado por uma discreta lágrima! Todo o culto das memórias congelou o ar!!!" (E.V.).

Abaixo o seu discurso, na íntegra.

A ÚLTIMA PANDORGA
Na época do meu primeiro colégio
as manhãs se acordavam com a gente.
Existia para elas
uma música desajeitada
nascendo na alvorada dos carretos
que iam fretando aos poucos
os sonhos leves da infância.
O sabor era inconfundível
café com leite e um avental bem engomado
o resto, era enfrentar o olhar sisudo das maestras.
Dona Ana com sua sineta
benzia o reboliço das filas
Lúcia com seu olhar
incendiava minha paixão de guri.
Lá bem do fundo dos corredores
vinha a Catarina, que não era da Rússia
era de todos nós
do João Pedro, Ivaldo, José Júlio
do Joás e mais tantos
inclusive os já matriculados
no educandário da outra vida.
Na época do Demétrio Ribeiro
os crepúsculos tinham um gostinho de picolé
e as tardes, aquela vontade de andar com pés descalços
nelas, a ternura brincava de ciranda
num sério descompromisso com a vida.
Hoje por estas manhãs e crepúsculos
vamos soltando nossas últimas
pandorgas...


Colégio Demétrio Ribeiro - Alegrete/RS.

Quase quarenta anos depois, volto a visitar o meu segundo e último colégio, desmonto-o, e transgressoramente o reconstruo com janelas góticas que me espiam, longos passadiços, onde suspendo-me quase voejado pela sombra das horas. As minhas lembranças, as tuas e as de tantos outros, navegam, alvejadas por um luar franzino que aos poucos vai pespontando cicatrizes, saudades e tempo. De tudo que restou, velam-me agora estes:

OLHOS DE GIZ
Tudo estava como da primeira vez
os corredores longos
as portas altas
aquelas brancas escadas de mármore
suspenso, intocável, como se regesse
a ópera das almas
estava ali o clima da época
vivo, transpirando.
Os ruídos das canções vinham de longe
com vozes e músicas de um tempo antigo
os sonhos escritos no quadro negro
aos poucos foram se apagando
no seu lugar nasceram
minguados olhos de giz.
Após a sineta
todos voltam para a sala de aula
nós, não voltamos mais.
A seringueira quieta plantada está
como uma esfinge, a cuidar
nossos eternos deveres de casa.
Os telhados carregados de silêncio
vão anunciando pouco a pouco
o ninho de novos pássaros.
Pelas paredes aqueles cartazes
tão familiares, chegavam para mim
como íntimos telegramas do tempo
talvez pedindo socorro
pela ternura doente
pela paixão aniquilada
por tudo aquilo que perdemos juntos.
Tudo estava como da primeira vez
só que desta
não gazeamos mais as aulas do destino.

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Nas intermináveis viagens da minha insônia, soçobro entre a proa do sonho e as infindas coxilhas da minha relva. Não me perturba este ocaso, valho-me apenas da ocasião. O que me assalta por estes dias é jamais seguir os conselhos de Ulisses. Posso ser acorrentado , açoitado pelo sal da sesmaria e desfigurar o lábio com o leite ácido da figueira. Não! Não me entumeçam os ouvidos, quero ouvir o canto das sereias. Através dos regressos, teço a minha ida e de trânsitos, tramo a minha volta. Tenho na palma da mão o sopro mágico das palavras e guardo as tuas e a de tantos outros que escreveram sobre nossa pátria.

Mosaico com poéticas alegretinidades de Wamosy até nossos dias.

UM TRIBUTO AOS MEUS PARES

(...) TERRA que és minha mãe, abra-me os braços
que eu repouse tranqüilo dos cansaços
que hão de cansar-me o corpo, dolorosos,(1*- Alceu Wamosy)

No teu seio materno, que oferece
uma fecunda e redentora messe
de novas sensações e novos gozos!...

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(...) Do meu peito evade-se a calma (2* - Olegário Vitor de Andrade)
os meus sonhos de glória e de paz
e à guisa do repouso da alma
sobrevive a lembrança fugaz.

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(...) Au portail de l'eglise, ou l'autre soupire
A porta da igreja onde suspiros se ouvem
Il passe jour e nuit en chantant (3* - Jacques D”avray, pseudônimo de José Freitas Valle)
Ele canta dia e noite
Et se chanson attirent
E suas canções encantam

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(...) Alegrete
Londres do futuro
Pecuaríssima (4* - Tyrteu da Rocha Viana)
Cabeça
de Comarca.

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(...) Urdes na alma do rude o organismo do teu mito (5* - Hernani Carvalho Schimit)

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(...) A arte a que legaste poemas soberanos (6* - Ciro de Andrade)

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(...) Mas irás comigo, afincada no meu coração
a incomparável ventura de ter conhecido (7* - Ciro Soares Leães)
e amado

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(...) Rua em rua, acenderam-se os telhados
num claro riso as tabuletas riram (8* - Mário Quintana)
e até no canto onde os deixei guardados
os meus sapatos velhos refloriram

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(...) Minha pequena pátria da infância distante, Alegrete.
Exílio de ti que me impus, há quanto tempo!!!! (9* - Bicca Larré)

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(...) Chegamos a Alegrete ao entardecer.

A temperatura continuava alta e me lembrei de Prestes dizendo que, sob a cidade, havia uma imensa laje, à tardinha e à noite, o calor absorvido ao longo do dia começava a subir e a fibrilar (10* - Sergio Faraco).

O comércio já fechara e em minha rua nem uma só janela aberta - era a praxe dos dias quentes, para manter dentro de casa o frescor da sombra. Nas calçadas nem uma só alma, e na esquina do Posto Mautone cruzava uma carroça. Naquela suada calmaria da província, chegava alguém da Rússia. Era como se alguém voltasse, como Teseu, do reino dos mortos.

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(...) Aqui neste cemitério de Alegrete, os clarins do Exército Brasileiro dizem adeus a outro grande soldado. Um soldado de farda e de gravata. Que soube lutar com as armas da guerra e cultivar com carinho as searas da paz. General da Educação, assim chamava o povo. E a voz do povo é a voz de Deus (11* - Alcy Cheuiche).

Alcy Vargas Cheuiche repousa na terra alegretense depois de 94 anos de vida. Quase um século se passou desde aquele ensolarado 4 de abril de 1904, em que a linda Maria Cândida deu a luz para mais um menino.

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(...) Fizeram o que quiseram,
mudaram tudo
na minha velha rua,
hoje Joaquim Nabuco.
A minha Rua Nina (12* - Hélio Ricciardi)
toda esburacada e pedregosa
de muros floridos,
de gente amiga, gente boa...

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(...) Um dia me deu saudades
e eu fui rever o pago
sentir da china o afago (13* - João Vargas)
e o vento frio do pampeiro

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(...) Quando o negro abre esta gaita
abre o livro de sua vida (14* - Gilberto Carvalho)

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(...) Minha cidade índia
olhos de uva preta
pitanga doce no sexo (15* Laci Osório)
cachaça, cancha de tava
sonho, açúcar, café preto
mulata bunda de abelha
o piá de estância da praça
boitatá lavra horizonte
na centelha azul do rio.

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(...) Não vão fazer como eu fiz
que de tanto caminhar (16* Antônio Brasil Milano)
fui parar no fim do mundo

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(...) Que nasci em Alegrete
e me criei no subúrbio proletário de Diretor Pestana em Porto Alegre,
que contemplei os matizes do poente (17* - Breno Ferreira Silva).
e as fases da lua nestes dois hemisférios em que está dividido
este caótico planeta,
que tenho amigos mortos em todos os círculos do inferno
e opositores no céu....

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(...) Ando a esmo
por traz do tempo
minha raiz deixa marcas (18* - Naná Menezes)
no chão onde afloram
fragmentos milenares

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(...) O homem arma o mundo com palavras
verbo na noite invertebrada (19* - Zezinho Queiroga)

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(...) É preciso o caminho
terra firme
chão batido
e o panorama sempre (20* - Rui Neves)

sol
céu azul
e o homem construindo o destino.

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(...) Andei por muitos lugares
por muitos ando ainda (21* - André Mitidieri)
em todos estes andares
reinas na ternura infinda.

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(...) Assim é a primavera
cheia de canto e desencantos (22* - Irene Sbrissa).

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(...) Tem navios, um homem-rã
tem um santo e um guerreiro (23* Carlinhos Lopes)
viajando para Aldebarã.

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Muito obrigado pela honra que me concederam em ser o Patrono da Feira do Livro, no Sesquicentenário de nossa pátria imortal.
Obrigado pela presença de todos os amigos e conterrâneos que aqui estão na abertura do evento. Recebam todo meu afeto.

Élvio Vargas - primavera de 2007.

(*) SUAS FONTES DE CONSULTA:
1-Fragmento do soneto "Terra!" de Alceu Wamosy. Livro: Na Terra Virgem, Alegrete-1914, pg.77.

2- Segundo quarteto do poema” A flor de minha esperança”, de Olegário Vitor de Andrade – Tradução de Sérgio Faraco. Livro: A palavra escrita em Alegrete-1845-1995. Idealizado e organizado por Élvio Vargas, com as parcerias de: Zezinho Quiroga, Vírgínia do Rosário e outros. Ilustrações de Pirata Leães. Patrocínio: Prefeitura Municipal de Alegrete (gestão Dr.Nilo Soares Gonçalves), p.19.

3- Segundo quarteto do poema "Le Troubador”, de Jacques D´Avray, pseudônimo de José Freitas Valle, poeta simbolista que nasceu em Alegrete, radicado em São Paulo, que escreveu toda a sua obra em francês. Tradução de Terezinha Moutinho, para posterior publicação no livro: A Palavra Escrita em Alegrete-1845/1995, pg. 28.

4- Versos finais do poema "Alegrete", de Tyrteu da Rocha Viana. Livro: “Saco de viagem”. Organizador: Itálico Marcon, pg.82.

5- Segundo verso do segundo quarteto do soneto "Coruja", de Hernani CarValho Schimitt. Livro : “ A Palavra Escrita em Alegrete-1845/1995”, pg. 30.

6- Primeiro verso do segundo quarteto do poema "Leconte de Lisle" ,de Ciro de Andrade. Livro : A Palavra Escrita em Alegrete-1845/1995.

7- Versos centrais do “Último Poema”, de Ciro Soares Leães. Livro : A Palavra Escrita em Alegrete-1845/1995, pg. 33.

8- Segundo quarteto do Verso III da Antologia Poética Mário Quintana - Editora LPM, pg.9.

9- Texto inicial da crônica "Patriazinha", de J.Bicca Larré. Livro: Crônicas do Diário, pg.53.

10- Texto extraído do penúltimo capítulo do livro "Lágrimas na chuva", de Sérgio Faraco. Editora LPM, pg. 165.

11- Preâmbulo da crônica “Toque de Silêncio”, de Alcy Cheuiche. Livro: Na Garupa de Chronos- Editora Uniprom. Pg.100

12- Fragmento do poema ”Rua Nina", de Hélio Ricciardi. Livro: Diário de um poeta de aldeia. Edição IEL 1992 - pg. 42.

13- Quarto sexteto do poema ”Querência", de João Vargas Livro: A Palavra Escrita em Alegrete-1845/1995, pg.41. 14- Célebre estribilho do clássico regionalista “ O Negro da gaita”, na voz de César Passarinho e letra do poeta alegretense Gilberto Carvalho.

15- Excerto do poema “ O Rio e a Rosa”, de Laci Osório. Livro: Laci Osório - O poeta, o rio, a questão social. Organizador: Anselmo F. Amaral. Pg.20.

16- Versos iniciais do poema ”Canção da rosa dos ventos", de Antonio Brasil Milano. Livro: A Palavra Escrita em Alegrete-1845/1995, pg.48.

17- Abertura da prosa poética “ Inventário”, do poeta Breno Ferreira Silva. Livro: A Palavra Escrita em Alegrete-1845/1995, pg.50.

18- Abertura do poema “Concomitância”, de Naná Menezes. Livro: Retorno da Fenix - Edição de amigos, pg. 13.

19- Fragmento do poema “Clarobscuro”, de Zezinho Quiroga. Livro: A Palavra Escrita em Alegrete-1845/1995, p.61.

20-Versos finais do poema”Tarefa III”, de Rui Neves. Livro: Sedimentos da Manhã, pg.11.

21- Excerto do poema ”Brevê para um ilusionista”, de André Mittidieri. Livro : Desde a Volta de La Luna, pg. 107.

22- Versos inicais do terceiro quarteto do soneto “Cheiro de Primavera”, de Irene Sbrissa. Livro: A Palavra Escrita em Alegrete-1845/1995, pg. 60.

23-Versos iniciais do poema “Mosaico” de Carlinhos Lopes. Livro: A Palavra Escrita em Alegrete-1845/1995, pg.59.