ANTONIO BRASIL MILANO




Advogado, pecuarista e Delegado Regional de Polícia, B.2.2.2 - ANTONIO BRASIL MILANO nasceu em Alegrete-RS, em 02-05-1913 e e faleceu em 10-08-1973, nessa mesma cidade. Era filho de N.2.2 – EUCLIDES BRASIL MILANO e ANA ("Donana") DE FREITAS VALLE.

Era poeta, sob o pseudônimo de ASSIS DO VALE. Seus versos eternizaram-se em seus livros, entre eles, Passageiro do Tempo Breve e Canções de Todos os Tempos.


Canção da Rosa dos Ventos (1970)

Antonio Brasil Milano

(ao Sérgio Faraco)

Não vão fazer como eu fiz
que de tanto caminhar
Fui parar no fim do mundo,
fui bater as suas portas
- quase não pude voltar -
salvou-me nas mãos um signo
e uma pedra de avatar.
Não vão fazer como eu fiz
que morri antes da hora.
E ao vir do mundo das trevas
já não sei mais o que faço
desses meus passos de sombra
para não tisnar na estrada
aquela tua rosa branca
branca branca que de branca
na sua haste desmaiou.

Não vão fazer como eu fiz.
Agora, a dar novo passo
será cauteloso, embora
encontre pelo caminho
as pegadas do meu sonho,
a não ser que logo, adiante,
surja nômade teu vulto
com pulcra rosa dos ventos
para guiar-me na bruma.

Com a pulcra rosa dos ventos
com meu signo nas mãos
minha pedra de avatar,
só assim, meus passos de sombra
não tisnarão tua rosa
branca branca que de branca
na sua haste desmaiou.

Poesia publicada no livro "A Palavra Escrita em Alegrete, 1845-1995", p. 48-49, editado pelo Governo do Município de Alegrete - gestão 93/96, na primavera de 1995. Élvio Vargas (direção) e José Carlos F. de Queiroga (assistente de direção), após pesquisa feita nos Cadernos do Extremo Sul - Revista Ibirapuitã e Coleção Letras Riograndenses de Guilherme Cézar - vol. I.

Nota da Webmaster:
O escritor Sergio Faraco é casado com uma das filhas de Antônio Brasil Milano (Ana Cybele).




TREM TOMBADO

José Bicca Larré (**)

(Do livro Crônicas do diário, 2007).

A história cultural do meu Alegrete deve ter um capítulo especial aberto a um dos seus grandes intelectuais. Poeta, cronista, contista e escritor, dr. Antônio Brasil Milano foi delegado regional de polícia por muitos anos, e dedicado à cultura pela vida toda.

Teve livros publicados, que só podem ser encontrados em prateleiras de bibliotecas e escritórios particulares. Um desses volumes tive comigo durante muitos anos, mas depois sumiu na voragem livresca de algum amigo.

Alguns de seus trabalhos foram publicados nos "Cadernos do Ibirapuitã" e noutras publicações que existiram e que desapareceram sob tacões de botas e patas de cavalos.

Tive o privilégio de ter sido seu amigo e de com ele privar em oportunidades várias. Era um "papo" agradabilíssimo, que fazia a todos calarem para ouvi-lo. Dotado de verve excepcional, conhecia e inventava histórias pitorescas, que contava com graça e facúndia inigualáveis. Seu senso de humor contrastava com a sua eficiente atividade policial.

Dizia-me, certa vez, que as palavras nem sempre conseguem dizer mais do que os gestos. E contava-me a história de um interrogatório que fizera com um peão de estância que viu um trem descarrilar. Era pelos idos de 40 e, em plena guerra, um acidente ferroviário exigia inquérito detalhado das circunstâncias, responsáveis etc. Havia sempre a suspeita de um ato de sabotagem. Coisas comuns essas paranóias em épocas de guerra.

O tombamento do trem ocorrera nos fundos de uma fazenda, entre Alegrete e Uruguaiana. Ao longo da linha férrea, o peão campereava, recorrendo os campos, olhando o gado e as cercas, curando bicheiras, e essas demais coisas que se fazem diariamente nas lides campeiras do Rio Grande.

E ele me contava que o peão, perguntado, respondeu:

- Óie dotô: quando eu bombiei pra esquerda, o trem vinha botando fumaça pelos tubo. Aí, quando feiz a curva, o bicho se fresquiô pra cá, se fresquiô pra lá e pruum.. Se pranchô..

- Isso, acompanhado pelos gestos do peão, ficava claro, mas como colocar no papel, sem ferir a autenticidade? Como, amigo Larré? Como?

(**) Jornalista e escritor alegretense (http://assisbrasil.org/joao/blarre.htm )


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