O CASTELO DE PEDRAS ALTAS


O castelo de Pedras Altas e o retrato de Assis Brasil



A SENTINELA DE PEDRA

O castelo de Pedras Altas se impõe nas desoladas planícies do sul do estado do Rio Grande do Sul como testemunha da história e patrimônio dos gaúchos. Nascido em São Gabriel, Joaquim Francisco de Assis Brasil - diplomata, político, revolucionário, agropecuarista e escritor - escolheu a sede do castelo em 1904. Situada a 30 quilômetros de Pinheiro Machado, Pedras Altas tem clima seco (altitude de 370 metros), pastagens abundantes e fontes de água. A pedra angular da fortaleza, de 44 cômodos, foi lançada em maio de 1909. Depois de ter atuado nas embaixadas de Washington e Portugal e discursado em parlamentos, Assis Brasil queria morar no campo. Também desejava oferecer conforto à segunda mulher, Lídia Pereira Felício de São Mamede, filha de José Pereira Felício, o segundo conde de São Mamede. Os dois se casaram em Lisboa, em 1898.

Pedras Altas impulsionou a atrasada pecuária gaúcha. Assis Brasil importou vacas jersey da Inglaterra, robustos touros devon, cavalos árabes e ovelhas karakul e ideal. Só criava animais de raça, como galinhas white wyandotte trazidas dos Estados Unidos. Ele também introduziu novas espécies de árvores, como o eucalipto, construiu estrebarias, galpões e porteiras que ainda funcionam. Ainda inventou utensílios, como a bomba de chimarrão de mil furos que jamais entope e leva o seu nome.

Assis Brasil ergueu a fortaleza com traços medievais numa das paisagens mais isoladas do Rio Grande do Sul para mostrar que era possível desfrutar a natureza sem ficar embrutecido. A idéia não era ostentar, mas enobrecer o campo. O diplomata, que privou com reis e chefes de Estado, achava que o arado e o livro eram as ferramentas do progresso. Em 1999 governo tentou tombar o castelo de Pedras Altas como monumento histórico, mas a família de Assis Brasil recusou, preferindo manter o castelo com a família.

O texto acima é de Nilson Mariano, publicado em Zero Hora, Porto Alegre, Ano 34, nº 11.681, 10/08/1997, páginas 47 a 49.


DIÁRIO DE CECÍLIA NARRA A VIDA NO CAMPO


Cecilia vestida de camponesa para colher aspargos

Por entre as ameias do castelo de Pedras Altas, Cecília de Assis Brasil não contemplou apenas as ondulações vertiginosas do campo. Numa época marcada por sabres ensanguentados, botas embarradas e relinchos de cavalos, a jovem, que devorava as poesias do norteamericano Henry Longfellow (1807-1882) em inglês e ouvia sinfonias de Ludwig van Beethoven na solidão do pampa, registrou o citidiano e as revoluções do início deste século. No seu diário, tão preciso quanto sensível, Cecília contou a vida no castelo e as conflagrações entre maragatos (libertadores de lenço vermelho no pescoço) e chimangos (republicanos de lenço branco).

Primeira filha do segundo casamento de Joaquim Francisco de Assis Brasil, Cecília era diferente da maioria das moças da virada do século. Ela nasceu em Washington, a 26 de maio de 1899, quando Assis Brasil era embaixador nos Estados Unidos. Morreu aos 35 anos, solteira, fulminada por um raio quando cavalgava nas proximidades do castelo de Pedras Altas. As fotos mostram uma mulher de olhos morenos arrebatadores, mãos delicadas, feições suaves e um sorriso compreensivo.

Cecília guardava o castelo quando o pai precisava se ausentar, peregrinando pelas cortes em intermináveis discussões diplomáticas. Era caseira e culta, conciliava as tarefas domésticas com os estudos. Gostava de produzir queijos, bater manteiga, dar mamadeira a cordeiros órfãos, cuidar de uma ninhada de pintos, colher aspargos. Sabia o ponto exato da calda de doce de figo. Também acompanhava o desenvolvimento das vacas jersey, importadas da Inglaterra, e das ovelhas karakul. Divertia-se com os irmãos em pescarias de lambaris ou longas cavalgadas. Lia autores clásicos e revistas como a Life e Les Annales quase diariamente. Quando estava triste, preferia os poemas de Longfellow. Atenta, observava a movimentação de políticos e revolucionários que iam ao castelo se aconselhar com Assis Brasil.

Os diários de Cecília (compilados pelo jornalista Carlos Reverbel e publicados pela L&PM) demonstram o quanto a família Assis Brasil adorava o campo. A 24 de outubro de 1916, quando tinha 17 anos, Cecília anotou:

Estive muito tempo parada, admirando os lindos touros devon há pouco chegados. São duas magníficas estampas... Demos umas voltas a pé, de tarde, e as minhas companheiras tentaram convencer-me que São Paulo ou Paris são melhores do que o Ibirapuitã. Quando for a esses lugares saberei ao certo, mas por enquanto agarro-me ao meu ideal: a vida do campo. Sou assim, e agora?

As anotações no diário mostram como era a rotina em Pedras Altas. Os Assis Brasil madrugavam, faziam serviços de casa e nunca descuidavam da educação. Cecília falava inglês e francês, mas também entendia o linguajar rude dos gaúchos. Tanto podia ler The Jungle Book, de Rudyard Kipling, como citar expressões do tipo "de vereda" (repentinamente), "mateando" (tomando chimarrão) e "bóia" (refeição). A três de janeiro de 1923 ela antecipou a inconformidade dos libertadores, liderados por Assis Brasil, com fraudes eleitorais que reconduziram Antônio Augusto Borges de Medeiros ao governo pela quinta vez:

Encaixotei a manteiga para diversos fregueses (Cia Swift, C. Wigg, F. Lima, Hotel Schaefer e F. Amaral). Enviei também as contas do mês passado. Mandei parar rodeio e dar sal ao gado. Os jornais continuam a trazer notícias alarmantes. Parece que o Chimango (os maragatos apelidaram Borges de Medeiros com o nome dessa espécie de gavião) está distribuindo armamentos. We are prepared!

Em 19 de abril de 1923, Cecília alertava que a guerra era inevitável. Os moradores do castelo de Pedras Altas ficaram apreensivos e adotaram algumas providências:

... É quase certa uma revolução, quando o Borges tomar posse. Os jornais publicam um telegrama do papai, aconselhando calma e dignidade diante das provocações, e a reagir com energia diante de ataques materiais... Decidimos esconder o que pudermos, sem dar nas vistas. Subi ao esconderijo, feito a propósito. Auxiliada pelas manas, lá depositei diversas pastas de papéis, com a maior economia de espaço... Imagino só a aflição da mamãe, tão longe de nós. Antes de me deitar dei um tiro num cão que estava comendo lavagem na porta da cozinha.

Cães e chimangos não eram bem-vindos. A revolução de 1923 convulsionou o Estado. Cecília e os irmãos tiveram de abandonar o castelo, exilando-se no Rio de Janeiro, onde já estava o casal Assis Brasil. Cecília voltaria para Pedras Altas outras vezes. Ela poderia ter morado em Paris ou Washington. Preferiu a amplidão dos campos.

O texto acima é de Nilson Mariano, Zero Hora, Porto Alegre, Ano 34, nº 11.681, 10/08/1997, páginas 47 a 49.

Apresentamos a seguir um interessante artigo de OLYR ZAVASCHI, publicado no jornal Zero Hora, que trata do acordo obtido em Pedras Altas que deu fim à revolução de 1923.


O FIM DAS GUERRAS CIVÍS


Assinatura do término da revolução de 1923 no castelo de Pedras Altas.
À esquerda o General Setembrino de Carvalho e à direita o Dr. Assis Brasil

A paz de Pedras Altas, entre as forças políticas que apoiavam BORGES DE MEDEIROS e suas reeleições sucessivas e aquelas que haviam se insurgido contra isso sob o comando de JOAQUIM FRANCISCO DE ASSIS BRASIL foi assinada no castelo deste último em 14 de dezembro de 1923. A Revolução de 1923 durara apenas 11 meses, mas projetara sombras de preocupação sobre o estado. Estavam vivas ainda em todas as famílias as recordações da guerra de 1893, que fora o mais desapiedado de todos os confrontos da história do Rio Grande. As histórias das degolas e dos degoladores estavam presentes no imaginário popular. O recomeço de um confronto entre chimangos (que apoiavam o governo) e libertadores provocou, por isso, a preocupação em todo o país.

A paz foi conquistada depois das negociações comandadas pelo ministro da Guerra, general FERNANDO SETEMBRINO DE CARVALHO, com a participação do senador JOÃO LYRA, representante do Congresso. O acordo obtido em Pedras Altas previa o fim daquilo que os rebeldes chamavam de "ditadura republicana"que permitia a reeleição sucessiva de BORGES DE MEDEIROS. Este concluiria seu mandato e não mais se recandidataria.

O acordo foi importante para o Rio Grande do Sul. O sucessor de Borge no governo gaúcho seria GETÚLIO VARGAS. Em 1930, a frente única rio-grandense teria forças pata assumir o governo do país.

O texto acima é de Olyr Zavaschi, publicado em Zero Hora, Porto Alegre, 25-11-2003 página 54.


A DURA LIDA, A DOCE CALMA E OS FRAGMENTOS DE HISTÓRIA

Imponente por fora na solidez dos granitos rosados, com os torrões medievais parecendo vigiar a solidão dos campos, o castelo de Pedras Altas também impressiona por dentro. Móveis de madeira maciça, lareira fumegando, estátuas, espadas antigas, relógios que gemem pesadamente e retratos amarelecidos revelam segredos da família de Joaquim Francisco de Assis Brasil e mostram fragmentos da história do Rio Grande do Sul. Entrar na fortaleza é como espiar uma época de sonhos, revoluções e ideais.

Já na entrada do castelo, o visitante depara com a inscrição gravada na laje:

Bem-vindo à mansão que encerra
Dura lida e doce calma:
O arado que educa a terrra;
O livro que amanha a alma.

Mais do que uma recepção, o verso indica a filosofia de Joaquim Francisco de Assis Brasil. Suor e sabedoria. Na granja de 300 hectares onde desponta o castelo, todos trabalhavam e cuidavam da educação. Depois de ordenharem as vacas jersey, podiam ler Sheakespeare em inglês.

A incursão pelo castelo começa pelo hall. Os móveis, estilo colonial, importados de Nova York, acomodaram políticos, revolucionários e intelectuais. Um enorme relógio, que pertenceu a Bento Gonçalves, o comandante da Revolução Farroupilha (1835-1845), titetaqueia sonolento. Cada objeto conta alguma história. Uma das janelas está com quatro vidros quebrados. Eles lembram que os chimangos (republicanos) invadiram a fortaleza. Assis Brasil não consentiu o conserto da vidraça, argumentando que "toda casa deve ter suas cicatrizes"

Assis Brasil brinca de Guilherme Tell em 1902, no Rio de Janeiro,
e acerta uma maçã sobre a cabeça de Alberto Santos=Dumont

O passeio continua pela sala do piano, onde as filhas de Assis Brasil alegravam os saraus. Nas paredes, fotografias expõem cenas insólitas. Numa delas Assis Brasil aparece brincando de Guilherme Tell com Santos-Dumont. Exímio atirador, o diplomata acertou uma maçã colocada sobre a cabeça do pai da aviação.

A sala de jantar vai virando a roda do tempo. Uma fantasmagórica caveira de cervo comprova outra peripécia. Em 1895, Assis Brasil foi nomeado embaixador plenipotenciário para Portugal, com a missão de melhorar as relações diplomáticas, então bastante azedas. Habilidoso e cativante, Assis Brasil logo caiu nas graças do rei Dom Carlos. Durante uma caçada, o rei mandou que o diplomata disparasse o primeiro tiro contra um cervo. Assis Brasil desculpou-se. O privilégio era de Sua Majestade. Como Dom Carlos insistisse muito, Assis Brasil atirou. O animal continuou andando. Então, o rei abateu a presa e, antes de se dirigir ao cervo caído, perguntou: "Mas onde está a sua fama de bom atirador?" A resposta: "Verifique a galhada direita, Majestade!" Diplomaticamente, Assis Brasil tinha atingido apenas o chifre do cervo (ver foto nº 27, na Galeria de Fotos abaixo).

Todos os 44 cômodos do castelo fascinam. A mobília dos aposentos de Assis Brasil veio de Paris. Doze lareiras aqueciam a família, Os banheiros ficavam dentro da fortaleza, numa época em que a lei mandava instalar sanitários fora das casas. Mas a biblioteca, talvez, seja a mais valiosa, com 15 mil livros. Há clássicos em inglês, francês e latim. Entre as relíquias, 22 volumes da Enciclopédia, de Diderot e D'Alambert, de 1751.

Os descendentes de Assis Brasil preservam o castelo. Zelam por cada fotografia, livro, cristal, prataria. Guardam datas e acontecimentos que permeiam a história do Rio Grande. Também estão mantendo a produção da granja. Os touros devon continuam arrebatando prêmios. As vacas jersey pastam ao redor das muralhas, fornecendo o leite para a fabricação da centenária manteiga de Pedras Altas. Assis Brasil e Lídia repousam no cemitério da Boa Viagem, à sombra de ciprestes e eucaliptos que semearam.

O texto acima é de Nilson Mariano, publicado em Zero Hora, Porto Alegre, Ano 34, nº 11.681, 10/08/1997, páginas 47 a 49.


FAZENDAS E ESTÂNCIAS

Com esse título, a RBS-TV de Porto Alegre apresenta um programa com documentários sobre as propriedades rurais do Rio Grande do Sul. Em novembro de 2005 foi transmitido um capítulo dedicado à Granja de Pedras Altas, falando de sua história e apresentando depoimentos sobre sua construção e histórias ali passadas. Participaram do programa, por ordem de apresentação, Antônio Vargas, escritor, Lydia Costa Pereira de Assis Brasil, neta de Assis Brasil, Francisco Pinheiro, peão da década de 1970 e Luiz Francisco Pereira de Assis Brasil, bisneto de Assis Brasil.

A seguir apresentamos os depoimentos constantes do programa na ordem em que foram feitos.

Locutor: Entrar no Castelo de Pedras Altas é voltar a uma época de sonhos e ideais. A construção, com traços medievais, foi erguida em uma das mais desoladas regiões do Rio Grande do Sul numa época de revoluções. Cada canto do castelo foi transformado em página da história do Rio Grande do Sul.

Antônio Vargas - escritor: A família Assis Brasil, o diplomata Joaquim Francisco de Assis Brasil, se instalou aqui em Pedras Altas em 1904, vinte anos depois da construção da estação da estrada de ferro em 1884.

Locutor: O diplomata, político, revolucionário, agropecuarista e escritor Joaquim Francisco de Assis Brasil foi o idealizador da granja onde desponta o castelo.

Lydia Costa Pereira de Assis Brasil - neta: Em 1904 Assis Brasil adquiriu 170 hectares. Em 1907 ele deu início à construção do castelo, após concluir o galpão da ordenha das vacas. Em 1913 o castelo ficou pronto e Joaquim Francisco de Assis Brasil, sua esposa Lydia e seus filhos se mudaram para cá. Foram seis anos de construção. A construção tem a forma de castelo em homenagem a Lydia, sua segunda esposa. Como ela nasceu na Europa e morava numa casa semelhante, ele teve a idéia de proporcionar à esposa um ambiente familiar.

Locutor: O castelo surge na região sul do estado, no atual município de Pedras Altas. Os engenheiros da estrada de ferro descobriram a existência de duas pedras enormes, uma apoiada sobre a outra, com alturas aproximadas de 5 metros, as quais deram origem ao nome de Pedras Altas.

Francisco Pinheiro - Peão da década de 1970: Para mim ela é uma casa que deve ser respeitada, o senhor vê. Uma casa dessas tem nome na história que deve ser respeitado. Tem nome na história.

Antônio Vargas: Há muitas lendas, muitas especulações, falavam e falam muitas coisas do castelo.

Lydia: Para a construção do castelo, Assis Brasil usou um material que existe em grande quantidade aqui na região de Pedras Altas, o granito rosa, uma pedra muito bonita. Para o trabalho dessas pedras, Assis Brasil trouxe três espanhóis da cidade de Rigo. Foram eles que entalharam todas as pedras e as encaixaram. O castelo é todo feito dessas pedras encaixadas umas sobre as outras, sem argamassa.

Locutor:

Bem-vindo à mansão que encerra
Dura lida e doce calma:
O arado que educa a terrra;
O livro que amanha a alma.
Os versos escritos por Assis Brasil, que estão juntos ao portão de entrada do castelo, são mais do que uma recepção. É a sua filosofia, suor e sabedoria. Na granja, além do trabalho, educação.

Lydia: O castelo é composto de 44 peças e 12 lareiras. As pessoas que moravam aqui tinham a harmonia entre a vida do campo e as atividades eruditas, como leituras, saraus, música. Como Assis Brasil construiu a granja para que ela fosse visitada, a propriedade sempre foi um atrativo. Vinham pessoas curiosas querendo conhecer a Granja de Pedras Altas, o Castelo Assis Brasil.

Luiz Francisco Pereira de Assis Brasil - bisneto: Como Assis Brasil trazia artistas e pessoas de grande conhecimento, o castelo era um local aonde afluía a cultura.

Locutor: A biblioteca do castelo impressiona. São quase 20 mil livros clássicos em inglês, francês, latim e outros idiomas.

Antônio Vargas: Os moradores da granja sempre tiveram disposição para ensinar. Além do avanço da tecnologia que vinha para a granja, chegavam muitas pessoas com necessidade de aprender. Eram acolhidas aqui e aprendiam, até mesmo, línguas.

Lydia: Ele chamou a biblioteca de "biblioteca pública". Ele abriu a biblioteca a todas as pessoas que se interessassem por leitura, pesquisa e informação.

Locutor: Assis Brasil construiu o castelo de Pedras Altas para demonstrar que era possível ao homem viver junto à natureza sem ter uma vida rudimentar. A idéia não era ostentar, mas de enobrecer o campo.

Lydia: Assis Brasil, amante apaixonado pela vida do campo, visitava propriedades na América e na Europa. Em cada uma delas se inspirou em atividades que fossem benéficas para o Rio Grande do Sul e para o Brasil.

Luiz Francisco: Aqui ele realizou e experimentou diversos sistemas de produção vegetal e animal numa época em que se aplicava muito pouca tecnologia. Ele trouxe de outros países, e do próprio Brasil, técnicas das mais avançadas para a época.

Lydia: Foi essa a intenção de Assis Brasil ao implantar a Granja de Pedras Altas. É um projeto rural diversificado, localizado em uma pequena área, visando o melhoramento do solo, melhoramento de raças e diversificação de atividades.

Locutor: Pedras Altas impulsionou a pecuária gaúcha. Assis Brasil importou vacas Jersey, touros Devon, cavalos Árabes e ovelhas Karakul e Ideal. Ele também foi um inventor, criando, por exemplo, a porteira com contrapeso, que abre na vertical. E a bomba de chimarrão com 1000 furos que jamais entope. A filha de Joaquim Francisco, Cecília de Assis Brasil, guardava o castelo quando o pai precisava ausentar-se. Cecília, uma vez, anotou no seu diário: "Demos uma volta a pé, de tarde, e as minhas amigas tentaram convencer-me de que São Paulo ou Paris são melhores do que o Ibirapuitã. Quando for a esses lugares saberei ao certo, por enquanto, agarro-me ao meu ideal: a vida no campo". O diário de Cecília registra a vida quotidiana na granja e os combates do início do século 20, como a revolução de 1923. No dia 3 de janeiro de 1923, quando tinha 23 anos, Cecília anotou: "Os jornais continuam a trazer notícias alarmantes. Parece que o chimango está distribuindo armamento. É quase certa uma revolução. Estamos preparados".

Antônio Vargas: A revolução do século19, a de 1893-1895, já foi um prenúncio da de 1923. A política estadual na época era uma ditadura.

Locutor: Rio Grande do Sul eleições de 1923. O herdeiro político de Júlio de Castilhos, Borges de Medeiros, depois de vários mandatos consecutivos, candidata-se mais uma vez a presidente do estado do Rio Grande do Sul.

Antônio Vargas: Dr. Assis foi a personalidade central nos eventos que marcaram a revolução de 1923. Ele se opunha ao então governo de Borges de Medeiros, que era o herdeiro político de Júlio de Castilhos. O Borges de Medeiros se fez presidente do estado logo após Júlio de Castilhos e se perpetuou no poder. Em 1923, o Dr. Assis Brasil se candidatou à presidência do estado para interromper as sucessivas vitórias de Borges de Medeiros.

Locutor: Então ele surgiu como uma figura centralizadora e catalisadora dos anseios de grande parte da população que queria uma mudança.

Antônio Vargas: O desejo de mudança resultou numa votação enorme. A Aliança Libertadora, à qual pertencia o Dr. Assis Brasil, teve uma votação extraordinária, mas as eleições foram fraudadas e ele perdeu. Isso ocasionou a revolução de 1923 que teve Assis Brasil por seu chefe civil.

Locutor: A revolução de 1923 durou 11 meses. Os republicanos d Borges de Medeiros foram chamados de "chimangos" e seus oponentes ligados a Assis Brasil foram denominados "maragatos". O castelo se tornou um alvo chimango durante a revolução. Com os combates, a família de Assis Brasil deixa o local e a fortaleza é invadida. Tempos depois, Assis Brasil não permitiu o conserto de uma vidraça quebrada pelos inimigos durante a invasão, alegando que "toda a casa deve ter as suas cicatrizes".

Antônio Vargas Ele não conseguiu que o governo federal anulasse as eleições, mas conseguiu o Tratado de Pedras Altas onde ficaram estabelecidos muitos itens que iriam mudar a visão da política estadual e devolver a cidadania ao eleitor.

Locutor: A primeira tentativa de paz veio com o Pacto de Pedras Altas, assinado em 15 de dezembro de 1923, no próprio castelo.

Lydia: O Pacto de Pedras Altas foi assinado na mesa redonda que está na sala da frente

Locutor: Assis Brasil faleceu em 1938 e está sepultado no local denominado Boa Viagem, situado nos fundos do castelo. A beleza de Pedras Altas atravessou os tempos. Seus ares de nobreza e mistério se misturam com tempos de sangue derramado, botas sujas de barro, trotes e relinchos de cavalos. É a própria história encravada em tempos modernos. Um castelo se impõe nas desoladas planícies do sul do Rio Grande do Sul, como testemunha da história dos gaúchos e seu patrimônio.

Lydia: Isto aqui é um valor que não tem medida, que não tem tamanho. Isto aqui é de um valor sem limite, é precioso, é grandioso, é acessível é vivo e é real.

Ficha técnica do programa
Realização: RBS-TV
Narração: João Difner e Lana Madeira
Roteiro e direção: Hique Montauri
Argumento: Carlos Urbim
Diretor de fotografia: Carlos Henrique "Boca"
Trilha: Jean Presser
Imagens: Ioanez Silva
Produção: Riancc Loretto
Assistente de direção: Tiago Loretto
Eletricista: Antônio Souza
Efeitos sonoros: Iraci Lopes
Operador de áudio: João Santos
Abertura: Celso dos Santos Jr, Marcos Borges e Ronaldo Sabin
Pirografia: Marcos Girard
Edição de Imagens: Michelle Silva
Realização: Cláudia Azevedo, Márcio Riffel e Rafael Peçanha.
Assistência de coordenação: Micheline Gonçalves, Silvinha Otharam e Tiago de Castro
Coordenação de produção: Zanza Pereira
Coordenação de operações: André Armani, Anselmo Silva, José Linck, Valdir Gonçalves e Voltaitre Vargas.
Gerente de operações: Norton Marconi
Gerente de Produção: Alice Urbin
Diretor geral da série: Gilberto Terin
Diretor Responsável: Raul Costa Jr.

ACERVO FOTOGRÁFICO

As fotografias abaixo pertencem à família de Joaquim Francisco de Assis Brasil e não estão disponíveis, sem prévia autorização, para publicação por qualquer meio.

Caminho que leva ao castelo 1-Caminho que leva ao castelo
Desenho do castelo 2-Desenho do castelo

Vista lateral do castelo 3-Vista lateral do castelo
Vista frontal do castelo 4-Vista frontal do castelo

Vista mais próxima do castelo 5-Vista mais próxima do castelo
Outro ângulo do castelo 6-Outro ângulo do castelo

A casa 7-A casa
Área externa 8-Área externa

Área externa 9-Área externa
10-Mensagem de boas vindas (Dura lida...)

11-O jardim
Velha árvore no jardim 12- Velha árvore no jardim

Pedra no jardim 13-Pedra no jardim
 Cotage, a 1ª casa pré-fabricada do Brasil (1905) 14-Cotage, a 1ª casa pré-fabricada do Brasil (1905)

Fábrica de lacticínios (1907) 15-Fábrica de lacticínios (1907)
Leitaria (1907) 16-Leitaria (1907)

Galpão (1907) 17- Galpão (1907)
Conjunto de galpões 18- Conjunto de galpões

Um bezerro da raça Jersey 19- Um bezerro da raça Jersey
O velho pátio 20-O velho pátio

Lida no campo 21-Lida no campo (castelo ao fundo)
Cavalgada 22-Cavalgada

Capa do velho album de fotografias (1920) 23-Capa do velho album de fotografias (1920)
A biblioteca  (visão geral) 24-A biblioteca (visão geral)

A biblioteca  (detalhe da escrivaninha) 25-A biblioteca (detalhe da escrivaninha)
A biblioteca (outro ângulo) 26-A biblioteca (outro ângulo)

Um antigo relógio 27-Um antigo relógio
Banheiro 28-Banheiro

 Copo de cristal com monograma de JFAB 29-Copo de cristal com monograma de JFAB
Vellha arma sobre a porta 30-Vellha arma sobre a porta

Espada e brasão do Rio Grande do Sul 31-Espada e brasão do Rio Grande do Sul
O brasão 32-O brasão

Sala de jantar com troféus de caça 33-Sala de jantar com troféus de caça
Outro ângulo da sala de jantar 34-Outro ângulo da sala de jantar

O cervo na sala de jantar 35-O cervo na sala de jantar
Sala 36-Sala

Sala 37-Sala
Sala 38-Sala

39-Detalhe do interior do castelo
40-Fotos de família

40-Sala com lareira
Piano 41-Piano

Quarto 42-Quarto